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PALAVRA DO PRESIDENTE


CRISE HÍDRICA, SOMADA À CRISE MORAL E EXCESSO DE GANÂNCIA COLOCARÁ O BRASIL DE JOELHOS.


Há duas décadas, ou seja, desde a crise ocorrida em 2001, com apagões pelo Brasil, vivemos às voltas com crise hídrica a cada ano que passa. Ano após ano, anotamos menor precipitação de chuvas e, com isso, os principais reservatórios das usinas hidrelétricas foram perdendo índices de armazenamento, alguns chegando ao chamado “volume morto”.

Entretanto, e como se os responsáveis por administrar esse recursos experimentassem uma catarse, ano após ano nenhuma providência foi tomada, seja para remediar a situação, seja para evitar o que hoje parece inevitável: o colapso iminente, logo ali na frente.

Mesmo diante da tragédia que se anuncia, o que ouvimos seguidamente é que não haverá desabastecimento de energia (isso afirma o ONS). Em nenhum momento temos ouvido as autoridades adotarem medidas de contenção de consumo de água e de energia. Na verdade, o que vivemos é uma crise de ganância por parte do setor produtivo de energia, que vê a oportunidade de ganhar mais com o aumento da demanda, pouco se importando se vai ter água ou não no reservatório nos meses seguintes, assim como também vivemos uma crise moral no que diz respeito ao consumo: ninguém admite abrir mão de privilégios e confortos adquiridos, e se apegam ferrenhamente a tais privilégios e confortos, sem se importar com a absoluta necessidade que temos, atualmente, de sermos comedidos em nossos hábitos de consumo de água e de energia.

Basta saber usar com parcimônia, que não irá faltar. Mas, e sempre nos deparamos com um “mas” nesses momentos, hoje me parece que não existe o senso coletivo de que caminhamos a passos largos para o abismo. Andei pelo Brasil, entre os meses de junho e julho, e, por onde passei o que vi e o que ouvi são constatações estarrecedoras. O Rio São Francisco, decantado em prosa e verso, hoje é um rio que agoniza.

No sudeste, região onde se concentra mais da metade da produção de energia elétrica no país em UHE’s, na bacia do Rio Paraná e de seus afluentes/tributários, os rios maiores estão “encolhendo” e rios menores simplesmente desapareceram.

E o que dizer do Centro Oeste, notadamente na região do Pantanal, onde um dos principais rios que formam a planície pantaneira, o Rio Taquari, está com o seu leito completamente seco em determinados trechos. Isso mesmo, onde era água, e água em abundância, agora temos apenas pó. Isso, obviamente, se reflete no Rio Paraguai, também famoso e poético, tema de tantas canções e histórias de batalhas travadas em tempos imemoriais. Esse rio, outrora majestoso e de corrente caudalosa, onde a navegação era permitida sem restrição para grandes embarcações e comboios, em muitos pontos hoje permite que passemos de um lado ao outro de seu leito a pés, com água não muito acima da cintura.

Em grande parte do Brasil não estamos mais respirando apenas o ar puro. A Amazônia, que já foi dita “o pulmão do mundo”, esta se consumindo em fumaça e fogo. Fumaça de incêndios que ocorrem acidentalmente, face ao calor e ao clima extremamente seco, mas, principalmente, de incêndios promovidos intencionalmente pelo homem, em queimadas criminosas que não acabam.

E no meio disso tudo, o que está se acabando é a vida. È preciso que algo seja feito agora, imediatamente, sob pena de que amanhã, e esse amanhã não é apenas um lugar distante no futuro, nada mais haverá a ser feito. Será, então, o tempo em que iremos precisar de nossas lágrimas para apagar o fogo e lançar na mãe terra um pouco da água que, na vida inteira, tiramos dela.


Raimundo Holanda C. Filho Empresário Presidente da Fenavega - Federação Nacional das Empresas de Navegação. Vice-Presidente da CNT - Confederação Nacional de Transportes. Presidente da CTnav - Câmara Temática de Navegação e Portos.

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